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Crônicas russas (1)

 A viagem

Para essa viagem preparei-me durante um ano. Não que fosse difícil entrar na Rússia. Seria suficiente fazer reservas nos hotéis, pagar as diárias e com voucher dirigir-se para o Consulado Russo mais próximo e receber o visto de entrada. Mais, eu não queria viajar como um turista comum, tipo: chegar por ex. em S.Petersburgo, hospedar se num hotel durante alguns dias, fazer algumas excursões, ficar no meio de estrangeiros e logo depois voltar para o meu país. Para mim, isso não é turismo, no máximo, um passatempo bastante caro e não muito inteligente. Eu queria viver na Rússia por algum tempo, por conta própria. Sem guias, sem tradutores, sem excursões. Por isso informei-me no Consulado Russo em Brasília como poderia conseguir o visto para fazer uma viagem desse tipo. Assim fiquei sabendo que seria necessário obter um convite pessoal de uma pessoa da Rússia, e que com este convite, poderia receber um visto de permanência por 90 dias (prorrogável por mais 90 dias).

A divina providência ajudou-me com isso, porque durante dois anos trocava correspondência e e-mails com um casal de russos de Novgorod, uma cidade a 180 km de S.Petersburgo, em direção de Moscou.

Como os encontrei? Isso já é outra história que não vou contar agora porque não faz parte do tema desse artigo.

E-mail pra cá, e-mail pra lá, uma carta pra cá, uma pra lá e depois de uma bastante cansativa burocracia russa, recebi finalmente, em casa, o tão desejado convite! Com ele o recebimento de visto foi muito fácil. No Consulado Russo no Rio de Janeiro, depois de pagar uma taxa bastante salgada, (isso porque queria receber o visto em tempo expresso: em uma hora) o meu passaporte recebeu um belíssimo selo com o visto.

Já na Europa, considerei várias variantes de transporte, que poderia levar-me até à Rússia, precisamente até S. Petersburgo e depois, Novgorod. Queria comprar um carro, primeiro na Itália, em Genova, e depois na Alemanha, em Munique. Mas, a Europa depois de virar a União Européia, tornou-se muito complicada relativo a isso, não mais podendo o estrangeiro-turista comprar um carro em seu nome. Tentei então alugar um, e com ele seguir a viagem para a Rússia, mas nem isso foi possível, porque o seguro dos carros alugados não é válido nesse país, por falta dos acordos internacionais. Assim sobrou-me o trem, e no último caso – avião, o meio de transporte mais odiado e temido por mim. Depois de me informar numa agência, que a viagem de trem demoraria umas 47 horas e que seriam necessárias três trocas, em Hanover, Varsóvia e em S. Petersburgo, desisti e tomei uma decisão corajosa: seguir para S. Petersburgo de avião! 

No dia 2.06.07 às 22 horas, entrei, entregando a sorte a Deus, num Airbus, novinho em folha, das linhas aéreas alemãs, Lufthansa, que eu escolhi de propósito – já que tinha que confiar em algum piloto, seja ele um alemão. Não fiquei muito nervoso porque considerei a viagem de avião como um sinal do destino. Várias pessoas desaconselharam a ida de carro à Rússia. Na Embaixada da Federação Russa em Brasília o Cônsul falou sobre estradas em ruim estado de conservação, especialmente longe das grandes aglomerações urbanas; o meu amigo russo, Vladimir, contou sobre o trafico totalmente maluco e desorganizado e finalmente, uma jovem Russa que, encontrei no trem de Milão, para Munique, relatou-me, que a policia de transito na Rússia, tem um péssimo costume de aplicar as multas onde elas não deveriam existir, especialmente quando o carro em questão tem uma placa estrangeira! Mas, isso não me assustou em nada, já que a policia de muitos outros paises tem estranhamente, o mesmo costume!

O aeroporto de S. Petersburgo, Pulkovo, apareceu depois de 2.30 horas de vôo, que foi super tranqüilo e com “um céu de brigadeiro”. Aterrissamos depois de meia noite, com uma claridade quase diurna, o que não me surpreendeu; estávamos em período das famosas “noites brancas”.

Durante o vôo bati papo com um senhor italiano que, vivia “na ponte aérea”, entre Veneza e S. Petersburgo, e que trabalhava como projetista de interiores das residências particulares. Esse senhor contou-me que trabalhava para muitos ricos russos, que gastam rios de dinheiro com embelezamento de suas casas e que a vida na Rússia é muito cara porque a maioria dos russos é rica. Bem, como nunca acredito no que me dizem, fiquei muito ansioso para constatar pessoalmente como era a verdadeira vida na Rússia.

Nosso desembarque foi muito eficiente e rápido. Controle de passaportes muito meticuloso, mas sem nenhum exagero. Bagagens apareceram logo e não houve nenhum controle alfandegário. Não sei se assim é sempre ou se as autoridades russas confiaram no controle dos alemães, já que em Munique o controle foi minucioso, especialmente o da bagagem de mão.

Os “nossos russos” esperaram com grande ansiedade a chegada do avião. Depois de nos vermos, nos cumprimentamos calorosamente, e logo a seguir, colocamos as malas no carro deles. Fiquei um pouco apreensivo, quando verifiquei que o dito carro era o mesmo de três anos atrás, um “Lada” de quarta ou quinta juventude, que à primeira e à segunda vista não parecia muito confiável. A minha apreensão tinha base porque depois de uns 50 quilômetros de viagem, furou o pneu. Sorte, que o chofer era um daqueles russos, que “faz tudo” e não perde a calma e não se assusta com nenhuma dificuldade, e em 5 minutos seguimos novamente a caminho de Novgorod.

Da viagem não me lembro de muitos detalhes, estava em estado de choque, não só por causa do avião, mas também porque ainda não acreditava que estava viajando na Rússia, em direção ao desconhecido.

De tempo em tempo a “nossa russa”, Nina, falava: aqui, ficava a linha de frente durante o bloqueio de Leningrado, aqui, o bloqueio foi quebrado, aqui, teve lugar uma batalha muito sangrenta, aqui, está o memorial em honra dos soldados que pereceram durante as lutas pela cidade. Isso tudo parecia tão irreal! Porque uma coisa é ler sobre historia do bloqueio e outra é passar pessoalmente pelos lugares onde os fatos aconteceram. Para aumentar esse sentimento de irrealidade, de repente de trás dos bosques, logo acima da linha do horizonte, surgiu uma imensa, vermelho – púrpura, LUA, (escrevi com letras maiúsculas porque a lua realmente era gigantesca) e para piorar, a claridade estava aumentando, porque do outro lado do horizonte estava nascendo, o não menos gigantesco sol, e tudo isso às duas da madrugada! Por isso muitos dizem que a Rússia é um país mágico!

Em Novgorod entramos depois das quatro da manhã, quando já estava claro. Antes de chegarmos à casa dos amigos, ainda fizemos um rápido giro pela cidade e fiquei encantado com as belíssimas igrejas ortodoxas, que na calma da madrugada, pareciam misteriosas, mas também acolhedoras, com suas torres arredondadas e coloridas, que davam a impressão, que foram tiradas das histórias de fadas.

Apesar do cansaço, demorei muito para adormecer porque estava muito ansioso para conhecer profundamente essa linda cidade, com sua historia feita de glórias e de tragédias – que foi a primeira capital da Rússia e a mais antiga cidade do Rús (como era chamado o país nos tempos primordiais); apesar de que sobre isso não existe unanimidade entre historiadores, porque Kiev também almeja essa honra.

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