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Crônicas russas (3)

Vielikij Novgorod (história)……..continuação

A passagem destrutiva de Ivan O Terrível não foi a última tragédia que tocou à Novgorod.  Em 1611, mal a cidade começou a recuperar a sua antiga glória, foi ocupada pelos suecos.  Com esse acontecimento é relacionado um fato muito desagradável.

As tropas suecas cercaram a cidade durante muito tempo e quase desistiram do seu intento de invadir Novgorod porque as fortificações eram muito resistentes. Mas, para infelicidade dos cidadãos, encontrou-se entre eles um traidor que abriu os portões, deixando o caminho livre para os invasores. O nome do traidor era Ivaska Shval – servidor de um dos boiardos (nobres). Desde daquela época, em toda a Rússia, uma pessoa má, traiçoeira, desonesta, começou a ser chamada de “shval”.   Os suecos acabaram o “trabalho” que Ivan O Terrível começou e destruíram a cidade quase completamente. Depois disso Novgorad nunca recuperou a sua antiga glória.

Durante os séculos que se seguiram o desenvolvimento da cidade foi muito fraco, especialmente, quando no século XVIII foi fundada a nova capital da Rússia, em Sankt Petersburgo, e toda força do trabalho fluiu para lá.

No século XIX, Novgorod, que uma vez foi a cidade mais importante da Rússia, tornou-se uma cidade provincial do Império Russo. 

Mas, infelizmente as tragédias da cidade não acabaram, e o século XX tornou a ser o mais terrível na sua historia milenar. A Segunda Guerra Mundial varreu a Europa como uma bola de fogo, que não poupou Novgorod. Em agosto de 1941 a cidade foi invadida pelas tropas nazistas e ocupada por elas. Durante mais de dois anos Novgorod permaneceu na linha de frente.

Durante este tempo, os monumentos históricos sofreram destruição maior do que nos últimos mil anos! Monumentos de um valor histórico inestimável foram transformados em ruínas! Muitos afrescos foram destruídos, sem possibilidade de restauração. Foram roubados tesouros científicos e artísticos. Museus e monastérios foram transformados em casernas, estábulos e toaletes. Os nazistas roubavam tudo, até tijolos dos prédios históricos para aproveitá-los na constrição das estradas! Como resultado dos bombardeios e incêndios dos dois mil prédios habitacionais sobraram somente 40. Em consequência da guerra, a cidade quase desapareceu da face da terra!

Mas, os novogrodianos não se deixaram levar pelo desespero, e com persistência e paciência, e graças ao amor que sentiam pela sua cidade, reconstruíram todos os monumentos históricos e culturais, e hoje Novgorod é uma das cidades mais importantes da Rússia, do ponto de vista histórico.

Porém, a guerra nunca foi esquecida, especialmente o sacrifício de muitos, em defesa da liberdade da sua pátria, dos seus lares e suas famílias. Em todos os cantos onde teve lugar alguma batalha (e em torno de Novgorad foram muitas, pela razão do bloqueio de Leningrado), foram erguidos monumentos, em memória de todos aqueles que deram as suas vidas em defesa da sua terra. Esses monumentos, algumas vezes são grandes, outras vezes, é somente uma placa para lembrar nomes de alguns, que pereceram. Mas, nunca são grandiosos, são de uma simplicidade cativante. E sempre, sempre mesmo, são cercados pelas flores frescas!

Os meus amigos russos, que chamam a segunda guerra de Grande Guerra Patriótica (como todos os Russos) muitas vezes desculpavam-se por falar tanto em guerra, por mostrar sempre os lugares onde morreram tantos, mas, como explicaram: o sofrimento do povo russo foi tão imenso, que foi gravado para sempre na memória coletiva dele e a gratidão aos aqueles, que morreram, nunca vai ser esquecida.  Foram-me contadas muitas historias daquela época!

Como por exemplo, a história dos sinos principais da quase milenar catedral de Santa Sofia, que foram afundados no rio Volchov para não serem roubados pelos alemães (para os russos, os sinos são símbolo de liberdade).

Ou, como foram escondidas pelos habitantes de Novgorod, as principais estatuas arrancadas pelos nazistas do monumento “Milênio da Rússia”, sendo o monumento reconstruído depois da guerra. Aliás, os alemães queriam transportar o monumento para a Alemanha, mas como não conseguiram movê-lo, limitaram se a destruí-lo em parte. Alguns dos objetos sacros roubados foram recuperados muitos anos mais tarde, como por exemplo, a grande cruz da catedral Santa Sofia, que foi encontrado na Espanha e devolvido somente alguns anos atrás.

A minha amiga Nina, contou-me também alguns fatos pessoais, relacionados à guerra. Especialmente sobre o pai dela, Igor Kaberov, piloto da força aérea soviética, que lutou durante o bloqueio de Leningrado, e que recebeu o honroso título de “Herói da União Soviética” por ter derrubado 28 aviões inimigos!

Contou também, como todos os habitantes da cidade, especialmente mulheres e crianças, tiveram que fugir das tropas alemães, pelas estradas em direção à segurança, sob constante bombardeio dos aviões da Luftwaffe. Nesta época a Nina não tinha ainda completado um ano de idade. Na fuga era carregada pela mãe, no colo, e protegida pela avó. Quando os aviões passavam em vôo rasante por cima das cabeças dos fugitivos, atirando neles, ou jogando bombas, a mãe corria para o buraco mais próximo e protegia o bebê com o próprio corpo. Durante esta fuga, a pequenina Nina foi ferida seriamente, quando uma bomba caiu muito perto e a corrente do ar provocado pela explosão, arrancou a mãe para longe.

Nina contou-me sobre o desespero da família depois de sua volta para a cidade destruída, quando descobriu que a casa sobradada, construída apenas alguns meses antes da guerra desapareceu da face da terra! 

Fiquei sabendo também, como já nos tempos atuais, nos campos em volta de Novgorod, quando eles são arados, com freqüência são encontrados restos mortais dos perecidos na guerra. No caso da impossibilidade de identificar o corpo, é organizado um enterro militar nas proximidades do monumento erguido para lembrar a batalha pela quebra do bloqueio de Leningrado.

Depois de ouvir essas “pequenas” historias, depois de andar pelos campos em torno de Novgorod e de Sankt Petersburgo e depois de ver dezenas de pequenos e grandes monumentos cercados de flores “perdoei” os meus amigos de falarem tanto sobre a guerra!

Falem Amigos! E que nunca o sacrifício e sofrimento sejam esquecidos! Para que não aconteçam outros – piores!

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