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Crônicas russas (5)

A vida cotidiana e não só.

Os quarenta dias que passamos em Novgorod foram de uma tranquilidade total. Somente a primeira semana passada na casa dos amigos russos foi um pouquinho turbulenta. Mas, não no sentido negativo, não! Simplesmente por causa do excesso de zelo por parte deles pelo nosso bem estar e a nossa segurança. Isso tolhia em grande parte a liberdade de poder fazer as próprias descobertas relativas ao povo e a cidade.

Mas, do outro lado, na companhia deles foi possível conhecer vários lados interessantes, surpreendentes e de vez enquanto bizarros do povo russo.

Logo no primeiro dia fomos convidados para um grande churrasco – na Rússia chamado de “shashlyk” – que teve lugar no belíssimo parque nas proximidades do Kremlin de Novgorod.

Nossos amigos, músicos de mão cheia, estavam ocupados com a “performance” deles deixando nos sentados numa mesa com dois jovens estudantes da universidade local. Um deles falava bastante bem inglês, outro nem uma palavra, mas sorria sempre, convidando para tomar cerveja com ele. Não compreendia a nossa recusa (somos abstêmios) e com os gestos expressava o descontentamento. Somente graças à ajuda do amigo dele conseguimos nos explicar. Os dois estudantes e os vizinhos das outras mesas ficaram maravilhados com o fato, de que pessoas vindas de tão longe, aparecessem em Novgorod. Penso que éramos os primeiros turistas brasileiros que puseram os pés por lá! Pelo menos viajando por conta própria e não numa excursão. Com o descobrimento de nossas identidades, o prestigio dos nossos amigos (Nina e Leonid) cresceu muito; éramos hospedes deles!

A música que ouvimos do palco era variada, tinha até jazz, que é muito apreciado na Rússia, mas, que é pouco apreciado por mim. Afinal, não queria ouvir a música americana na Rússia, queria ouvir a música russa!

Por isso só me animei, quando do alto-falante começou a fluir uma atrás da outra, música dançante “made in Russia”. Para a minha surpresa eram canções com arranjos muito modernos, mas, sem perder aquela típica melodia e ritmo que fazem que, uma pessoa com um mínimo de conhecimento musical, logo saiba que só poderiam ser feitos pelos russos.

Os participantes do churrasco, sem demora, caíram numa frenética dança. Dançaram jovens e velhos, sem se importarem muito se tinham um par ou não; e quando não tinham – dançavam só. Alguns senhores, animadamente, enfeitavam seus passos com típicos saltos e saltinhos, uma vez levantando pernas para alto, outra, abaixando corpo até ao chão, esticavam as pernas bem para frente.

Mas, indubitavelmente, as mais animadas eram senhoras! Eram elas que tiravam os senhores para dançar e quando nenhum deles mostrava- se pronto para acompanhá-las, não ligavam, e formavam pequenos círculos, exclusivamente femininos! Todas elas, sem exceção eram ótimas bailarinas, tanto as jovens como as mais velhas, magras ou gordas. Já faz tempo, que não vi mulheres tão femininas, especialmente que, vestiam-se de um modo bastante diverso das mulheres da Europa Ocidental. Abusavam nas cores (mas não muito berrantes), usavam saias e vestidos enfeitados com babados, algumas com engraçados e elegantes chapéus na cabeça.

A parte da crônica a seguir é o relato de minha esposa que aqui transcrevo:

“Diverti-me muito observando o frenético movimento em torno, quando, uma das bailarinas, a mais exibida, aproximou-se da nossa mesa e pediu ao meu marido para dançar com ela! Gelei! Não tanto por causa do pedido, mas porque não sabia como ia reagir o Armando. Tinha absoluta certeza que não ia dançar “nem morto”; como então explicaria isso para senhora, sem ofendê-la? E mais uma vez correu em nosso socorro o prestativo estudante, companheiro de mesa. Começou a explicar algumas coisas para a senhora, e esta, depois de alguns momentos, apertou a mão do meu marido, acompanhado isso de um radiante sorriso, e retornou para o circulo das senhoras dançantes. Ficamos curiosos para saber o que foi dito à senhora? O “salvador” explicou que em nome do Armando elogiou a senhora pela dança, pela simpatia e gentileza, agradeceu pelo convite para dançar e explicou que ele não saberia como acompanhá-la no ritmo frenético do bailado, por isso, a recusa. Respirei aliviada porque as explicações foram aceitas e a senhora não se sentiu ofendida”.

Esse episódio serviu como um aviso para ser lembrado durante toda a permanência  na Rússia: não julgar os russos pelo prisma da cultura e costumes ocidentais.

Depois de umas latinhas de cerveja, o “estudante – salvador” perdeu totalmente o acanhamento e de uma pessoa introvertida (como é a maioria dos russos) transformou-se em conversador incansável e começou um animado debate político. Assim fiquei sabendo que ele e muitos jovens russos não estavam contentes com as mudanças ocorridas no país. Estavam contrariados com a política adotada no tempo de Gorbatchov e desprezavam Ieltsin. Além disso, estes jovens sentiam raiva por tudo que aconteceu na Iugoslávia. Ele contou que muitos estudantes queriam formar brigadas de voluntários durante os bombardeios de Belgrado pela OTAN para socorrer a Sérvia, mas o governo russo não permitiu.  O interessante foi que o amigo dele, aquele que não falava inglês, pensava tudo ao contrário!

A semana na casa da Nina e Leonid passou tão rápido que tive a impressão que foi um dia só!

Durante esse período visitamos juntos todos os belos monastérios e igrejas em Novgorod e nos arredores dela.

O que me impressionou foi que todos estavam restaurados ou se encontravam em faze final de restauração. Todas estas obras foram financiadas pelo governo federal como um gesto de amizade à Igreja Ortodoxa Russa, com qual Putin tem ótimas relações.

Visitamos também outro lugar muito interessante- o museu ao ar livre, “Vitoslavitsi”. Construído nos anos sessenta, é uma réplica das antigas aldeias russas – com uma grande curiosidade – as casas, igrejas, mobílias são originais e foram trazidas das aldeias autênticas. Os imóveis foram previamente desmontados e transportados nos helicópteros (algumas vezes dos lugares longíssimos) e depois montados no terreno do museu.

Para finalizar a nossa visita ao museu decidimos descansar numa taverna localizada no centro da “aldeia” onde eram oferecidos alguns refrescos preparados de acordo com receitas antigas russas. Um deles, chamado de “miedovuha” chamou particularmente a nossa atenção, tanto pela cor dourada como pelo aroma, lembrando aroma de mel. Antes de saborear a deliciosa bebida refrescante, perguntamos se ela não continha álcool, mas todos Nina, a vendedora, um grupo de turistas russos da mesa vizinha, afirmaram veementemente, que a “medovuha” era inofensiva como uma limonada. Eu não estava muito certo disso porque me lembrava de que na Polônia, nos tempos idos, antes da introdução da vodka, fabricava-se uma bebida parecida, feita justamente de mel e que de inofensiva ela não tinha nada!

Decidi fingir que acreditei nas afirmações e como estava muito quente cada um de nós bebeu três copos do “refresco”. Depois, já no carro, de volta a Novgorod, ficamos bastante eufóricos e cantamos em coro várias canções de repertório variado e de uma qualidade que deixava muito a desejar!

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